A carta de Flávio Bolsonaro: ele se diz "verdadeiro presidente eleito" nos EUA. Leia a íntegra e veja o que dizem os fatos
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Já nos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou nesta quarta-feira (28/10) uma carta em que se apresenta como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. No texto, ele fala em “fraude eleitoral”, sem apresentar provas, acusa o STF de perseguição, diz que não fugiu e anuncia que vai liderar a oposição do exterior. A carta foi publicada pelo comentarista Paulo Figueiredo, aliado do senador, segundo o SBT News e o ND+.
Segundo a CNN Brasil e a Jovem Pan, Flávio desembarcou em Miami nesta quarta, com a mulher e as duas filhas, depois de passar pela Argentina e pelo Equador. Veja a rota completa.
Os principais pontos da carta
- “Verdadeiro presidente eleito”: é a primeira frase do texto. Mais adiante, ele repete: “eu sou o presidente eleito”.
- Fraude e prorrogação: diz ter visto “uma fraude eleitoral se concretizar” e chama de “impossibilidade matemática” Lula ter somado mais de 10 milhões de votos do 1º para o 2º turno. Critica a prorrogação da votação decidida pelo ministro Cristiano Zanin, a quem chama de “ex-advogado do Lula”.
- Cassação da chapa: afirma que houve “abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública” e que isso justifica a cassação da chapa Lula-Alckmin.
- Ataque a Moraes e ao STF: sem citar o nome, diz que o juiz que mandou recolher seus passaportes está “implicado em um imenso escândalo de corrupção”. A carta não diz qual escândalo nem apresenta provas.
- “Não fugi”: “Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção”. Diz que saiu para não passar por “apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar”.
- Agradecimentos: a Javier Milei, “pela coragem, senso de justiça e legalidade”, e a Donald Trump, “por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil”.
- Exílio como estratégia: compara-se a Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí e a opositores venezuelanos.
- Próximos passos: promete falar “regularmente ao povo brasileiro” e apresentar “uma estratégia para mobilizar a oposição”, por “todos os meios pacíficos e legítimos”. Cita Rogério Marinho como seu candidato à presidência do Senado: “liderarei a oposição daqui”.
O que dizem os fatos
| O que a carta diz | O que se sabe |
|---|---|
| Flávio é o “verdadeiro presidente eleito” | O TSE proclamou Lula reeleito com 64.256.232 votos (51,79%), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio. O próprio PL reconheceu o resultado, e o vice de Flávio, Alfredo Gaspar, também reconheceu a derrota, segundo o Metrópoles. |
| Lula ganhar mais de 10 milhões de votos entre os turnos seria “impossibilidade matemática” | Pelos números do TSE, Lula ganhou 10,4 milhões e Flávio, 3,7 milhões. No 1º turno, os outros candidatos somaram cerca de 9,3 milhões de votos, que ficaram livres para o 2º turno. Veja como foi a virada. |
| A prorrogação foi ilegal e “chegou depois” do horário | A prorrogação foi decidida por Zanin a pedido das campanhas de Lula e de Flávio e valeu só para seções ainda abertas às 17h. O presidente do TSE afirmou que ela não alterou o resultado. Veja o que aconteceu. |
| “Não existe nenhum mandado de prisão contra mim” | É verdade. A PF afirma que as restrições aos passaportes, “por si só”, não fazem dele um foragido nem autorizam prisão, segundo a CNN Brasil. |
| “Não fugi do Brasil” | Moraes tinha mandado Flávio não sair do país e entregar também passaportes estrangeiros. Segundo a Folha e o Estadão, citados pelo GPS Brasília, ele usou o passaporte italiano para entrar na Argentina e o diplomático brasileiro, que tinha sido cancelado, para entrar nos EUA. A PF diz que não há registro oficial de saída dele pelos postos brasileiros. |
| O juiz está “implicado em um imenso escândalo de corrupção” | A carta não diz qual escândalo nem apresenta provas. Até a publicação deste texto, não encontramos manifestação do STF ou de Moraes sobre a carta. |
O brasão de 1889
A carta foi publicada com o brasão antigo do Brasil, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, usado entre 1889 e 1968, segundo o SBT News. O nome do país mudou para República Federativa do Brasil com a Constituição de 1967, e o brasão foi substituído oficialmente em fevereiro de 1968. Depois, o documento foi reenviado a jornalistas com a mensagem “brasão correto”, segundo a mesma reportagem.

Brasões: domínio público, Wikimedia Commons (atual). Montagem: Dois Lados da Política.
Segundo o Metrópoles, depois da repercussão Flávio também editou o texto e trocou a expressão “verdadeiro presidente eleito” por “líder do Brasil”. Segundo a Jovem Pan, fontes do PL disseram que não sabiam da carta.
Os dois lados
O que diz Flávio: que a eleição foi fraudada, que é alvo de “perseguição política” e que deixou o Brasil para não ser preso e poder liderar a oposição com liberdade. “Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros”, escreveu.
O que dizem os órgãos oficiais: o TSE proclamou Lula reeleito e afirma que a prorrogação não mudou o resultado. A PF investiga como as ordens judiciais foram descumpridas, segundo a CNN Brasil. Até a publicação deste texto, não encontramos resposta do governo, do PT ou do STF à carta. Ontem, Lula disse que “quem não deve, não teme”, ao comentar a saída de Flávio do país.
Leia a íntegra da carta
Reproduzimos o texto completo pelo interesse público, como foi divulgado por Paulo Figueiredo e publicado pelo SBT News e pelo ND+. As afirmações e acusações são do autor da carta e não foram comprovadas.
Clique para abrir a carta completa
Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil.
Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.
Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema. Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.
A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.
Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.
Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do impeachment. Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.
Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.
Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.
Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.
Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação.
Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim. Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.
À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal.
Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.
E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista.
Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar.
Que Deus abençoe o Brasil.
Este texto será atualizado se houver resposta do STF, do governo ou do PT.
Fontes
- SBT News: Flávio diz ser verdadeiro presidente e saúda Trump e Milei (com a íntegra da carta)
- ND+: leia a carta de Flávio Bolsonaro (íntegra)
- SBT News: Flávio usa brasão antigo em carta: Estados Unidos do Brazil
- Metrópoles: em carta, Flávio se declara "verdadeiro presidente eleito do Brasil"
- InfoMoney: em carta, Flávio Bolsonaro se autoproclama "verdadeiro presidente eleito"
- Jovem Pan: em carta, Flávio diz que é "o verdadeiro presidente eleito do Brasil"
- CNN Brasil: entenda por que Flávio Bolsonaro não é considerado foragido
- GPS Brasília: Flávio usou passaporte italiano para sair do Brasil e o diplomático para entrar nos EUA
- CNN Brasil: Lula critica fuga de Flávio para os EUA e diz que "quem não deve, não teme"
- Metrópoles: Flávio culpa prorrogação, mas aliados atribuem derrota a erros próprios
- TSE: resultado oficial do 2º turno